Treinadores que poderiam substituir Cuca no Santos – Parte 1

  • Sebastian Beccacece

Bad boy, jovem e revolucionário. A primadona dentre os treinadores do futebol sul-americano é um argentino cabeludo de apenas 37 anos, que transformou o Defensa y Justicia na equipe que melhor joga futebol no nosso continente. Mesmo com tão pouca idade, Beccacece já coleciona vários tipos de experiências na carreira, que começou cedo, aos 22 anos de idade, como auxiliar técnico de Jorge Sampaoli.

Foto: Getty

O atual treinador do Halcón sustenta números incríveis na modesta equipe argentina, tendo nove vitórias, quatro empates e apenas duas derrotas em 15 jogos desde que assumiu a equipe em julho desse ano, logo após o término da Copa do Mundo. Beccacece foi o braço direito de Sampaoli por mais de 12 anos, seguindo o “irmão” no Peru, Equador e Chile. Ele, inclusive, rejeitou propostas de Marcelo Bielsa para integrar sua comissão técnica nos tempos de Olympique de Marseille e Athletic Bilbao.

Assim como o ex-treinador da Argentina, Beccacece possui uma personalidade muito forte. Ele não costuma aliviar para os jogadores e jornalistas, acabando por se envolver em brigas no vestiário e trocando farpas nas coletivas de imprensa. A primeira oportunidade como treinador principal, na Universidad de Chile, em 2016, ilustra muito bem o apelido de bad boy. O trabalho de Beccacece foi um fiasco tanto nos números quanto nos bastidores. Por La U, o argentino comandou a equipe em 22 partidas, tendo somado quatro vitórias, nove empates e nove derrotas. No entanto, o que tornou seu trabalho insustentável foi além da inconstância tática da equipe, mas sim a quantidade exorbitante de entreveros com atletas renomados do elenco (chegou ao ponto de forçar escalação de jogadores lesionados em jogos grandes e afastar o capitão por fazer churrasco em momento inapropriado).

Entretanto, devido ao enorme conhecimento futebolístico que sempre apresentou, Beccacece manteve-se no meio. O trabalho como auxiliar de Sampaoli era sempre elogiado pelos jogadores, especialmente entre os chilenos nos tempos da seleção Roja. Apesar do jeito intempestivo, o argentino chamava a atenção pelas discussões táticas e comprometimento com o futebol ofensivo. Antes de aceitar o emprego de auxiliar técnico de Sampaoli na Argentina, Beccacece já fazia história no Defensa y Justicia, onde encontrou abrigo após a demissão da Universidad de Chile. Em sua primeira passagem, o treinador conquistou 12 vitórias, quatro empates e cinco derrotas em 21 jogos até junho de 2017, quando ele trocou a equipe amarela e verde pela albiceleste.

Segundo a imprensa argentina, Beccacece estava entre os culpados no choque de egos dentro do vestiário argentino durante a Copa. O mais exaltado era Sampaoli, mas Sebastián nunca deixou o “irmão mais velho” sozinho e, apesar de ser querido pela maioria dos jogadores, ele acabou se queimando junto. A salvação era novamente o Defensa, que lhe convidou para um retorno logo após a eliminação da seleção. E não poderia ter sido melhor.

Para entender o sucesso, é necessário falar sobre a filosofia de jogo em sua origem. Na primeira passagem, o treinador causou um furor não apenas pelos longos cabelos loiros, mas pela façanha de transformar um 3-5-2 num esquema ofensivo e esteticamente agradável. Beccacece é adepto do futebol bonito e faz questão de sentenciar isso por onde quer que passe. No entanto, a capacidade inventiva do argentino é incrível. Independente do esquema, ele faz suas equipes jogarem bem. Ele a desenha de acordo com a melhor característica de cada um. Por isso, em sua primeira passagem, ele jogava com três zagueiros. Ele tinha três ótimos defensores e dois laterais que eram melhores atacando do que defendendo. A solução parece simples, mas a configuração não é fácil, pois o Defensa é uma equipe nanica e sem dinheiro para contratar.

Já ouviu o ditado “o lixo de uns é o tesouro de outros”? Pois bem, Beccacece é um grande observador e montador de elencos. Geralmente suas equipes não são numerosas, mas são bem escolhidas. Ele foi buscar Alexander Barboza (você já leu sobre ele aqui) na equipe reserva do River e o transformou num dos melhores zagueiros da América do Sul. Augustín Bouzat era escanteado na equipe B do Boca e se tornou num dos melhores pontas da Argentina. Leonel Miranda (que também já apareceu nas listas do blog), o gênio do time, estava emprestado ao Houston Dynamo, na MLS, pelo Independiente e hoje é o líder de assistências da equipe e o jogador com melhor porcentagem de passes na Superliga nos últimos cinco anos. Isso sem contar Tomás Pochettino, Ciro Rius, Gastón Togni e Nicolás Fernández, que sempre pertenceu ao Halcón, mas que era considerado baixinho demais para ser goleador.

Atualmente, na segunda passagem, Beccacece usa o 4-3-3. Uma equipe altamente ofensiva e que não leva muitos gols. Uma equipe que sempre joga do mesmo jeito, seja em casa ou fora. Um Defensa y Justicia que não tem brucutus, nenhum volante pesadão, ou aquele jogador que só sabe roubar bola. O meio-campo do Halcón é formado por Blanco, Miranda e Rojas, que começaram suas carreiras como meia-atacantes, mas que com Beccacece aprenderam a defender também. No ataque, você enxerga Togni, Rius (ou Aliseda) e Fernández. Nenhum jogador alto, somente jogadores rápidos e dribladores. O que não quer dizer que Beccacece não goste de um pivô, pois ele foi buscar Marcelo Larrondo (de 1,88m) na reserva do River para servir de mudança tática.

O estilo do Defensa y Justicia é tão agradável porque alia vários elementos táticos, como o jogo direto, a verticalização, marcação pressão, troca de posições e a busca incessante pelo gol. Beccacece sofreu muito no Chile para controlar o vestiário. Viu muitas coisas quando era auxiliar de Sampaoli na seleção chilena e argentina. Isso tudo ajudou o bad boy a criar uma casca importantíssima para um treinador que nunca foi jogador profissional. No momento, o nome de Beccacece é especulado no Tijuana, porém, apenas dinheiro não é suficiente para dobrar a cabeça do argentino.

Antes do Jair Ventura chegar no começo do ano, o nome de Ariel Holán, que havia brigado com o Independiente, era especulado no clube, porém, hoje, a chance de tirá-lo do clube de coração é quase zero. Com a volta de Beccacece ao Defensa y Justicia, o excelente treinador do Rojo ficou “esquecido” pelo reluzente futebol do Halcón. Aliás, Beccacece é o novo Holán, pois o atual treinador do Independiente também despontou na carreira dirigindo o Defensa y Justicia. Se o Peixe dormir no ponto outra vez, vai perder mais um treinador inteligente e ofensivo para algum outro gigante do continente, que obviamente não vai abrir mão dele.

 

  • Rogério Ceni

Deixe o clubismo de lado como o próprio Ceni deixou. O atual campeão da Série B pelo Fortaleza é, hoje, o nome mais empolgante no mercado de treinadores do futebol brasileiro. Apesar da idolatria do torcedor do São Paulo pelo ex-goleiro, Rogério já deixou claro que pretende e deve alçar vôos maiores, independentemente da relação com o clube do Morumbi.

Foto: Fortaleza

No Fortaleza, o treinador mostrou que é possível jogar um futebol vistoso com as peças disponíveis. Ele tentou fazer isso no próprio São Paulo, mesmo que a fórceps, no ano passado, mas a falta de tato não apareceu na equipe cearense, que tinha um plano de jogo bem definido.

Priorizando jogadores técnicos no meio-campo, a equipe de Ceni nadou de braçada num cenário diferente da elite. Na Série B, onde tudo é mais brigado e físico (e obviamente menos técnico), o Tricolor de Aço colocou a bola no chão e liderou a competição com grande tranquilidade. A compactação, no entanto, foi tão importante quanto a estética. Com uma defesa bem postada e sem praticamente nenhuma alteração durante quase todo o campeonato, o Fortaleza tinha a sustentação defensiva necessária para que o meio-campo e ataque fossem mais criativos.

O esquema tático utilizado por Rogério Ceni foi o 4-2-3-1. Com Ligger e Jussani na zaga, a equipe tinha altura e noção de jogo. Tinga e Bruno Melo são laterais ofensivos, mas com vitalidade para acompanhar as jogadas defensivas. Melo, inclusive, elogiou o treinador após o título com um post no Instagram, onde ele confessou que “aprendeu a jogar bola” com Ceni. E foi praticamente isso. Bruno Melo foi um dos principais assistentes do Fortaleza, criando inúmeras oportunidades nas ultrapassagens e na bola parada. Defensivamente, todos os jogadores cumpriam bem o seu papel.

No meio-campo, Ceni conseguiu montar um setor que alia passe e velocidade, sempre utilizando volantes-armadores, que dominam a arte de lançar bolas para os pontas, que eram velocistas genuínos. O ápice técnico foi com Nenê Bonilha e Felipe, que não são jogadores rápidos, porém, articulam o jogo como meias mais ofensivos. O jogo posicional era sincronizado, sem ter que largar o posto. Marlon e Jean Patrick também fizeram parte da “volância” e se saíram bem.

Por contar com volantes técnicos e uma defesa bem postada, Rogério tinha em seus pontas o gatilho para as jogadas mais agudas. E mesmo perdendo seu melhor jogador para o Atlético-MG, Edinho, a equipe continuou jogando da mesma maneira. Marlon e Marcinho atuaram como os extremos no restante da temporada, protagonizando jogadas variadas, como infiltração e cruzamentos visando o centroavante Gustavo, que é muito forte no jogo aéreo.

Com isso, Dodô, que começou a carreira como ponta no Atlético-MG, virou um meia-ofensivo com poucas obrigações defensivas. Por ser técnico e driblador, o camisa 10 criava inúmeras ocasiões de gol. Com a profundidade de campo criada pelos extremos, Dodô tinha a liberdade de pisar dentro da área, justamente pelo pivô muito bem feito por Gustavo, que por sua vez era também encarregado de criar espaços dentro da área adversária para os meias que vinham de trás.

O papel do centroavante foi essencial e, mesmo tendo ficado algumas rodadas machucado, conseguiu voltar e ajudar o Leão a ser campeão. Com Ceni, o camisa 9 não fica parado. Independente da técnica, ele precisa puxar os zagueiros para fora da área, algo que Gustavo conseguiu fazer muito bem. Com tantos jogadores rápidos vindo de trás, o Fortaleza era uma ameaça muito séria devido ao seu estilo direto de jogo.

Essa é a síntese do atual treinador campeão da Série B. Uma equipe rápida, que pressiona e com estilo de jogo direto. O estilo casa com o que o torcedor santista estava acostumado em seus tempos de glória.

 

  • Antonio Mohamed

Assim como a maioria dos treinadores argentinos, Antonio Mohamed tem alguns parafusos faltando na cabeça. O que não é algo ruim necessariamente dizendo. Famoso pelo seu estilo enérgico, o treinador já passou por várias equipes mexicanas, com grande campanhas no América-MEX, Tijuana e Monterrey, e, recentemente, com curta passagem pela Espanha ao comandar o Celta de Vigo. Mohamed também dirigiu equipes argentinas, apesar de não ter ficado muito tempo em sua terra natal. Mesmo sem ser brilhante, ele levou o limitado time do Independiente ao título da Sul-americana em 2010 (venceu o Goiás na final).

Foto: AFP

Dentre os três treinadores apresentados nessa primeira parte, “El Turco” é o que mais se assemelha ao estilo de Cuca, que salvou o Santos do rebaixamento. O argentino gosta de equipes ofensivas, comumente escalando o selecionado no 4-3-3. No entanto, Mohamed não abre mão de uma defesa segura, geralmente optando por laterais fortes e táticos e zagueiros rápidos, independente da estatura.

Um dos jogadores mais queridos por El Turco pode ser um trunfo para o Santos contratá-lo. Adivinha quem? Ele mesmo: Carlos Sánchez. O uruguaio, que brilhou no River Plate, foi contratado a peso de ouro pelo Monterrey a pedido de Mohamed, que é um admirador declarado. Juntos, eles foram campeões da Copa MX do ano passado, onde Sánchez terminou como o artilheiro da competição. Além, claro, dos vários vices nesse processo.

O meio-campo é o setor em que Mohamed mais gosta de ousar. Seu esquema favorito é o 4-3-3, porém, dependendo do adversário, o 4-5-1 pode ganhar forma. Jogando em casa, as equipes do Turco são verdadeiramente intensas, porque ele dá preferência a meio-campistas capazes de atacar e defender. Normalmente, como mandante, o argentino vai usar um trio de meias. O que pode mudar é justamente o “terceiro homem”, sendo que dois serão sempre jogadores intensos e o terceiro pode variar entre um jogador de vitalidade para um de cadência. Como bom argentino, o terceiro homem é aquele “camisa 10”, o “enganche”. Aquele meia que é habilidoso, que tem boa finalização e visão de jogo. Bryan Ruíz poderia ter um salto com o argentino como treinador.

Quando a equipe do Monterrey atuava no 4-5-1, era porque a situação exigia mais cuidado e marcação. Aí que Carlos Sánchez entra novamente na história. Antes de chegar ao Santos, o uruguaio era famoso por ser um meia-direita impecável. Pato consegue aliar força física, visão de jogo e técnica, atuando dessa maneira na seleção uruguaia. Nos Rayados, Sánchez caia muito pelo lado direito, especialmente quando Cardona (hoje no Boca) atuava pelo lado esquerdo, justamente porque o colombiano é muito ofensivo e menos aplicado na marcação.

O setor de ataque, partindo do pressuposto de que o 4-3-3 é o sistema predileto de Mohamed, é o grande segredo do treinador. Sua similaridade com Cuca fica evidente nessa questão, porque tanto ele quanto o argentino gostam de jogar com pontas. Entretanto, Mohamed gosta de extremos que são finalizadores de jogadas e não criadores. Pabón, Ayovi, Hurtado, Benítez e Urreta são alguns dos pontas que jogaram com El Turco no Monterrey. Hurtado, no caso, chegou a ser artilheiro do Apertura 2017, quando a equipe perdeu o título para o rival Tigres. Nos tempos de América, onde o argentino foi campeão do Apertura e da Concachampions, os extremos eram a chave do sucesso da equipe. Quintero, Arroyo, Luis Rey, Zuñiga e Sambueza foram alguns dos nomes que explodiram sob o comando do Turco.

Apesar do diferencial nos extremos, Antonio Mohamed – que foi atacante quando era jogador profissional – passa longos tempos dos treinamentos com seus centroavantes. Não existe uma ideia fixa no tipo de camisa 9 que ele prefere, até porque ele já manejou vários (Benedetto, Peralta e Jiménez no América, Funes Mori no Monterrey, Aspas no Celta). Todavia, existe uma coisa que eles não podem fazer: ficar parado. Benedetto e Aspas são atacantes técnicos, de fino trato com a bola e com visão de jogo muito boa, podendo atuar fora da área e ajudando até na armação. Eles não só atraem a marcação como também abrem espaços para os pontas infiltrarem na área. Peralta, Jiménez e Funes Mori são “camisas 9 de verdade”, tendo a força física como grande qualidade. No entanto, todos esses jogadores cresceram muito com Mohamed, porque aprenderam a jogar sem a bola nos pés. São atacantes fortes, que caiam pelas pontas para escorar um lançamento. São atacantes que arrastam zagueiros e deixam o miolo livre. São atacantes que fazem pivô, mas que aparecem livres a maior parte do tempo na grande área. A movimentação é tudo.

Antonio Mohamed é bravo, exigente e enérgico. Não aceita corpo mole e não pensa duas vezes em afastar medalhões. Seu estilo de jogo é bem definido. El Turco gosta de uma defesa rápida e tática, um meio-campo intenso e técnico e um ataque explosivo. São poucos os treinadores que conseguem montar um 4-3-3 tão coeso como ele. Não existe chutão e os cruzamentos não são prioridades. O treinador argentino adora treinamentos específicos e segmentados. Atualmente ele se encontra desempregado após demissão surpresa do Celta de Vigo, onde fazia uma campanha regular.

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