Carlos Sánchez, volante do Santos (Foto: Ivan Storti/Santos FC)

O despertar de um coma

O futebol é um esporte fantástico não pela imprevisibilidade, mas especialmente pela coleção de fatores que fomentam e lapidam a história de uma partida. Existem várias fórmulas e até desculpas para se desenhar um jogo de futebol, porém, a alienação pode destruir qualquer tipo de análise sobre o que de fato levou a eliminação de uma equipe.

Não é novidade para ninguém que o Santos vive situação crítica em suas entranhas. Não é novidade para ninguém que o clube está rachado ao ponto de fazer torcedores torcerem por chapas políticas e não pelo escudo. Não é novidade para ninguém que o Santos teria dificuldades para entrar forte em 2019, não apenas por perder titulares importantes, mas pela óbvia dificuldade financeira que vive.

O que é novidade é literalmente o treinador Jorge Sampaoli. Novidade é o argentino fazer vários jogadores contestáveis e comuns apresentarem um futebol que nenhum treinador brasileiro foi (seria) capaz nesse clube. Novidade é o grupo entender e abraçar a filosofia que o Pelado procura implantar. Filosofia essa que não é fácil, especialmente para um clube que estava em coma futebolístico, assim como 97% dos clubes da Série A.

Perder para o River Plate, do Uruguai, também é uma novidade. Um vexame. Todo mundo sabe. Vexame esse que reverbera porque Sampaoli conseguiu fazer uma equipe desacreditada, e em frangalhos, desempenhar um futebol que não era esperado, sobretudo de uma maneira tão breve. Méritos dele e, numa escala menor, responsabilidade dele pela eliminação.

Ao contrário do que estão pintando, a parcela de culpa do treinador argentino é mínima, apesar de existir. Incontáveis treinadores passaram pelo clube nos últimos anos, cada um pior que o outro e com estilos diferentes. Nenhum com o estilo do Santos. Nenhum deles fez Jean Mota, um jogador comum, parecer um jogador melhor do que é. Nenhum deles fez o Alison melhorar os recursos básicos de um volante. Nenhum deles fez Gustavo Henrique sair jogando com tranquilidade. Entretanto, apenas um deles conseguiu entender as características de cada um e aprimorá-las em dois meses.

Tal qual uma pessoa que acabou de acordar de um coma, tudo parece novo para o Santos. O que espanta é a velocidade com que isso tudo aconteceu. Claramente haveria um ponto em que a felicidade momentânea seria substituída pela dura realidade se nada fosse feito para melhorar o time. Ou vai dizer que você acreditava piamente que esses mesmos jogadores da eliminação no Pacaembu eram gênios escondidos?

A diretoria do Santos, que acertou em cheio ao contratar Sampaoli, errou bisonhamente ao demorar em fortalecer o elenco. Confiou que, apesar do milagre inicial, as bênçãos divinas seriam suficientes para levar o time adiante. Por mais que o Sampaoli seja bom, não dá para tirar leite de pedra sempre.

Não é novidade para ninguém que o nível do futebol sul-americano é fraco em comparação ao europeu. Não é novidade para ninguém que o futebol brasileiro é paupérrimo. É assustador ver clubes em situação financeira melhor que o Santos de Jean Mota, Alison, Gustavo Henrique, Copete, Orinho Ferraz e cia estejam jogando pior. Mas é confortável criticar, porque o brasileiro morre de medo da novidade.

O grande vacilo do Santos na precoce eliminação da Sul-americana foi no jogo de ida, no Luís Franzini, no Uruguai. Mesmo não tendo jogado bem, o alvinegro empilhou chances para vencer a partida, sobretudo antes da expulsão do Orinho. Teve gol mal anulado, gol incrível perdido, teve nervosismo, teve o citado cartão vermelho, teve jogador em boa fase jogando mal. Teve incompetência técnica. Caso a arbitragem não tivesse errado ao anular o gol do Copete, a situação seria completamente diferente? Seria especialmente para um time em formação. Daria tranquilidade.

Jorge Sampaoli, técnico do Santos (Foto: Ivan Storti/Santos FC)

No entanto, o Santos falhou em não sacramentar seu favoritismo em solo uruguaio. Por mais que existisse uma diferença técnica grande entre as equipes, também existia o perigo do resultado. O Santos não foi tão criativo no Pacaembu como poderia, e tal como acostumou o brasileiro nesse início de temporada, porém, manteve sua filosofia de jogo. Teve problemas na execução porque uma hora a qualidade vai fazer falta. Nem sempre a boa vontade será suficiente. E quando não há técnica, o desespero canta.

A falha coletiva, mais até defensiva pelo lado esquerdo, no gol de Da Luz poderia acontecer em qualquer outro aspecto com essa mesma equipe. A dificuldade de criação já era imaginada, com esses nomes, antes mesmo da temporada começar. Independentemente da qualidade técnica dos darseneros, independente do péssimo Clausura que fizeram, o River Plate está há um bom tempo junto e com poucas alterações. A proposta era clara e foi bem executada.

Entretanto, é inadmissível o Santos chegar para esse confronto sem um lateral-esquerdo de ofício, com poucas opções criativas num banco de reservas tão fraco. Apesar da qualidade apresentada no Paulistão, que é um cenário completamente diferente de uma partida eliminatória entre equipes sul-americanas, a diretoria pediu para que o pandemônio acontecesse. Não se “brinca” em mata-mata.

O futebol europeu não está anos luz a frente do nosso somente pela condição financeira. Você não vê equipes tradicionais, que já foram gigantes em outrora, deixando para montar elenco com uma competição importante batendo na porta. Você não vê uma equipe por mais mediana que ela seja improvisando um jogador questionável na própria posição em outra. Elas podem até ser eliminadas por um pequeno numa competição eliminatória, porque o futebol é assim. No entanto, não é apenas pela imprevisibilidade e sim por fatores.

Se você acha que isso não tem nada a ver, então você não entendeu a contratação de Jorge Sampaoli e o que ela pode significar para o futuro do Santos Futebol Clube. Um treinador, que com muito menos, já apresentou mais que muito treinador, que tinha mais material humano.

O treinador argentino driblou vários erros da diretoria ao dar uma cara para essa equipe. Era notável em suas coletivas que ele sabia que, mesmo com o bom futebol apresentado, a equipe ainda estava em processo de formação. De que não era a ideal. Talvez pela facilidade com que Sampaoli tenha observado as virtudes dos atletas disponíveis, e tenha executado o plano, criou-se uma expectativa maior do que a realidade.

Assim como uma pessoa que acabou de acordar de um coma, o Santos (e o torcedor) precisa reaprender o que é futebol, a vida. Dentro de campo, não é fácil redesenhar a realidade, portanto, é necessário que fora de campo as cabeças pensantes procurem dar ferramentas para que algo maior seja feito.

Sampaoli não está isento da eliminação, tampouco é o grande culpado. Porém, se algo de bom acontece, muito é por conta dele.

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