Dossiê da Libertadores: Independiente-ARG

Esse será o jogo mais difícil do Santos, em jogos de Libertadores, desde a campanha do título em 2011. Não apenas por reunir duas das maiores entidades do futebol sul-americano, mas pelo simples fato de encarar uma das equipes mais bem treinadas do continente.

Serão 10 títulos da Copa em campo. Sete do Independiente e três do Peixe. Se não bastasse a história das duas equipes, o duelo colocará jogadores experientes e técnicos frente a frente.

Para entender o Independiente, é necessário muita calma e criatividade. Os comandados de Ariel Holan, treinador que chegou a ser cogitado pelo próprio Santos antes de escolher Jair Ventura, são jogadores acostumados ao jogo plástico, de toque de bola, ofensividade e muita disciplina quanto ao posicionamento nas quatro linhas.

Atuais campeões da Sul-americana, quando colocaram o Flamengo na roda, tanto em Avellaneda quanto no Rio de Janeiro, o Independiente modificou um pouco seu plantel. Nicolás Tagliafico, Diego Rodríguez e Ezequiel Barco não estão mais no conjunto Rojo, que encantaram brasileiros e argentinos por sua forma de jogar. Um era lateral-esquerdo e zagueiro, o outro era o volante organizador e o último era a grande promessa da equipe, de grande qualidade individual.

Eram três peças vitais no esquema de Holan, que sempre alternou entre o 4-3-3 para o 3-4-3, dependendo da circunstância e do adversário, poderia virar um 5-4-1. Vale ressaltar que, após perder esses jogadores já citados, o Independiente foi às compras. Antes de a Libertadores começar, Holan trouxe um pacotão de reforços (Braian Romero, Fernando Gaibor, Jonathan Menendez, Silvio Romero e Gonzalo Verón).

Todavia, o treinador argentino não conseguiu encaixar a maioria desses jogadores no estilo de jogo rebuscado da equipe. Não é por menos, pois essa nova cara do Independiente começou a se formar em novembro de 2016, quando o técnico chegou ao clube após sucesso no Defensa y Justicia. Holan, estudioso inveterado do futebol, levou o primeiro turno inteiro da Superliga para conseguir colocar em prática a sua filosofia de jogo.

Filosofia essa que sempre esteve presente nos áureos tempos do “Rey de Copas”. Aquela máquina dos anos 1970 que encantava a América do Sul, chegando ao ponto de empilhar QUATRO títulos seguidos da Libertadores entre 1972 e 1975. Antes desse domínio todo, em 1964 e em 1965, “El Diablo” já havia conquistado o bicampeonato do certame. Em 1964, inclusive, eles enfrentaram o Peixe na semifinal, onde venceram duas vezes (3×2 no Maracanã e 2×1 em Avellaneda). Vale ressaltar que, em 2015, veio à tona que Julio Grandona, ex-presidente da AFA e presidente do Independiente na época, comprou o árbitro holandês Leo Horn para que sua equipe saísse vencedora.

O Independiente atual é completamente controlado por Ariel Holan, que além de treinador também é torcedor fanático da equipe. Ninguém melhor do que ele para entender e colocar em prática tudo o que o clube construiu ao longo de sua história.

Esse é o esquema preferido de Holan. Um time que valoriza a posse de bola e a troca de posições, que visam abrir espaços para a finalização dos pontas.

O plantel dessa segunda metade de 2018 ganhou os reforços de Carlos Benavidez, Francisco Silva, Pablo Hernández, Guillermo Burdisso e Ezequiel Cerutti. Benavidez, por ter defendido o Defensor-URU nessa edição, não poderá enfrentar o Santos. Entretanto, Silva e Hernández (ambos são jogadores da seleção chilena) Burdisso (ex-Boca, futebol europeu e seleção) e Cerutti (estrela do San Lorenzo por três temporadas) estarão à disposição do treinador argentino.

Os chilenos provavelmente serão titulares contra o Peixe, sobretudo Pablo Hernández, que é argentino de nascimento. O camisa 19 é um jogador extremamente técnico, de bom chute e organização de jogo. Outro que certamente enfrentará o Santos é Guillermo Burdisso. O zagueiro, inclusive, foi contratado especialmente para os confrontos contra o clube, já que Franco e Figal, titulares da posição, estão suspensos para o primeiro jogo.

Cerutti será o décimo segundo jogador, ou até titular dependendo da condição física de Martín Benítez, que se machucou na partida contra o Newell’s Old Boys antes do confronto contra o Peixe. Cerutti é rápido e forte, gosta de atuar na ponta-direita e geralmente faz gol vindo de trás.

Por isso, apesar de ter uma ideia de jogo e atletas de qualidade técnica, a situação do Rojo não é tão consistente assim. Mesmo com o título da Copa Suruga contra o Cerezo Osaka, a equipe argentina demonstrou fraquezas e dificuldades que podem ser exploradas por Cuca nos próximos duelos. A prova de que o Independiente ainda não é aquele time que chamou a atenção na Sul-americana, um ano atrás, é o fato de ter flertado com a eliminação precoce no Grupo 7, o mesmo do Corinthians, que chegou a vencer em Avellaneda.

Obviamente, esses reforços de peso são para colocar um fim às inconstâncias da equipe, que tem como obsessão o oitavo título da Libertadores. Holan já provou que pode acertar o time e, caso consiga em tão pouco tempo, será praticamente impossível pará-los.

Em tese, o Peixe terá que se preocupar com uma equipe que, em casa, joga no 4-3-3. A formação deve ser Campaña, Bustos, Burdisso, Gastón Silva e Sánchez Miño; Francisco Silva, Gaibor (ou Domingo) e Hernández; Benítez (Cerutti), Meza e Gigliotti. A formação pode sofrer alterações em quatro posições, sendo três por conta de lesão. Sánchez Miño e Benítez saíram machucados do jogo contra o NOB (Benítez é muscular estando quase descartado), enquanto Silvio Romero está se recuperando de uma moléstia muscular após o jogo pela Copa Suruga. Fernando Gaibor ainda não conseguiu fazer uma partida em alto nível, tal qual seu histórico no Emelec sugeria quando Holan foi buscá-lo.

As fraquezas do Independiente nesse esquema, especificamente falando, começam na defesa. Como dito antes, Burdisso foi contratado porque Franco e Figal não podem atuar no jogo de ida. O ex-jogador do Boca possui sérios problemas para sair jogando com a bola nos pés. Ele é o famoso zagueiro cintura dura, que sofre contra jogadores rápidos e costuma ser lento na marcação. Seu companheiro de zaga, Gastón Silva, é lateral-esquerdo de origem, mas com características defensivas interessantes. Entretanto, o uruguaio é baixo e ainda não conseguiu se adaptar completamente a função.

Caso Sánchez Miño não tenha condições de jogo, Holan deve optar por Britez na zaga e Silva na lateral-esquerda, deixando o time mais forte defensivamente do que técnico. Miño é um ala que apoia muito e tem deficiências na marcação. O argentino também é muito bom nos tiros de média distância, além de tomar conta das jogadas de bola parada. Pelo lado direito, Holan dispõe do excelente Fabricio Bustos, de apenas 22 anos. “El Tractorzito”, como é conhecido, tem apenas 1,67m, porém, o que corre é um absurdo. Bustos não desiste de uma bola, além de ser um excelente cruzador e chutador. Geralmente peca pelo excesso de vontade na marcação, levando aquele amarelo bobo que irrita o torcedor. Além disso, quando precisa se conter, Bustos fica nervoso e começa a errar jogadas simples.

A bola aérea é a principal deficiência do Rojo. Os laterais são baixos e, com a ausência dos titulares, Holan conta apenas com Burdisso para afastar o perigo. Marcação alta e cruzamentos no segundo pau costumam assustar o time de Avellaneda. O fato de pressionar a defesa, que é obrigada a sair jogando, pode criar oportunidades para o Santos, pois os atuais titulares não são bons nisso.

A marcação pelo meio também é deficitária no Independiente, já que Holan sempre opta por um trio mais técnico do que marcador. Claramente, todos devem participar do sistema defensivo, porém, apenas um tem característica para tal: Francisco Silva. O chileno ainda sofre com a falta de ritmo de jogo e, caso a opção seja Nicolás Domingo, o time perde em velocidade e intensidade. Como Gaibor não vem jogando bem, o treinador argentino pode tirar o equatoriano e colocar Domingo ao lado de Silva, dando mais liberdade a Hernández.

Dito isso, cria-se um pequeno vácuo entre o meio-campo e a defesa do Independiente. Sem a bola, os argentinos sofrem um bocado, justamente pelos defeitos dos jogadores citados. Portanto, seria prudente pressioná-los até que percam a bola. Usar um “enganche” contra uma equipe argentina poderia ser importante, até de certa forma irônico.

Onde não há fraqueza no Independiente é o ataque, que vai exigir muita atenção e comprometimento tático do Santos. Hernández, mesmo fora de forma, é muito técnico e tem uma visão de jogo incrível. Igualmente incrível e perigoso é Maximiliano Meza, que atua pela ponta-direita. Hernández ficará no meio, mas Meza deve ficar mais livre pelas beiradas. O que vai implicar em seu futebol é justamente o lado, pois Benítez é dúvida. Se o “Conejo” não atuar, entra Cerutti na ponta-direita e Meza vai para a esquerda.

O camisa 8 do Rojo é mais forte na direita, justamente por ser destro. Ao contrário do que é feito no Brasil, os pontas cortam sempre para o meio, na esperança do ala correr por trás. Meza é um exímio driblador, porém, arma o jogo com mais maestria ainda. Sua visão de jogo é impressionante, sendo responsável pela triangulação de jogadas na entrada da área adversária, buscando criar espaços e abrir a defesa. Na esquerda, tenta fazer o mesmo, porém, geralmente opta por chutar a gol.

Entre Cerutti e Benítez, para o Santos é melhor que jogue o primeiro, porque é menos habilidoso. Caso “El Conejo” se recupere, o caldo pode engrossar. Benítez é muito técnico, dribla e chuta muito bem. Ele não é tão regular, mas quando está a fim de jogar bola, fica difícil pará-lo. Cerutti, ao contrário, é menos habilidoso, mas é mais agressivo e constante, especialmente nas jogadas de profundidade.

Por fim, a referência no ataque é Emmanuel Gigliotti. Conhecido como “Puma”, o veterano de 31 anos é forte e possui um chute poderoso. Apesar de não ser técnico, Gigliotti sabe fazer bem o pivô, além de criar espaços na defesa adversária ao movimentar-se por trás dos zagueiros. Nem sempre fica onde se imagina que um cara alto ficaria. E esse é o grande detalhe das jogadas ofensivas de Ariel Holan. Ele usa o Puma como despiste para as infiltrações de Meza, Benítez, Cerutti, ou seja, quem estiver jogando. Claramente, as jogadas aéreas são perigosas, mas é melhor ficar mais atento ainda aos duelos pelo chão.

Para o segundo jogo, assim como Holan gosta de fazer quando joga fora de casa, o Independiente pode jogar no 3-4-3, que vira 5-4-1 conforme a situação do jogo. Caso os argentinos levem a melhor no primeiro jogo, sem dúvida alguma ele vai vir para o Pacaembu nessa formação.

É bastante sutil a mudança do 3-4-3 para o 5-4-1. O Rojo ataca com três na frente, mas defende com cinco na linha. A versatilidade dos laterais e dos pontas permite essa faceta.

Com Franco e Figal podendo voltar ao time titular, Burdisso pode rodar e assim fechar a linha de três com Silva, que seria a válvula de escape na saída de jogo. Além disso, essa formação viabiliza e potencializa o que Miño e Bustos têm de melhor, que é o apoio ao ataque.

O meio-campo, dessa maneira, teria que ser mais conservador na “volância”. Silva e Domingo seriam as opções mais sensatas e mais utilizadas para o esquema. Evitaria assim levar tantos contra-ataques e fecharia mais os espaços que costumam aparecer quando a tática é o 4-3-3. Ofensivamente mudaria pouca coisa. Caso Silvio Romero se recupere da lesão, pelo estilo de jogo e pela técnica, ele ganharia a vaga de Gigliotti. O detalhe fica por parte, claro, na pressão que seria impressa com mais contundência, sobretudo pela presença dos alas nesse processo de recuperação de bola e triangulação quando houver a posse.

O Santos enfrentará seu adversário mais desafiante nesses anos recentes de Libertadores. Uma equipe que adora jogar com a bola nos pés, mas que também pode castigar o rival em jogadas de velocidade.

Entretanto, por mais que tenha um treinador estrategista e capacitado, o Rey de Copas apresenta defeitos que podem ser explorados, especialmente por um time que tem Rodrygo, Derlis González e Gabriel, que são jogadores rápidos e de drible fácil. Carlos Sánchez e Diego Pituca serão duas peças valiosas para o jogo, pois são jogadores de intensidade e técnica. Se o Peixe vencer os duelos no meio-campo, dificilmente perde o jogo, tanto lá quanto aqui.

Cuca vai precisar trabalhar muito a cabeça dos jogadores, pois o comprometimento tático será fundamental para sobreviver em Avellaneda, que estará abarrotada de torcedores argentinos. Tem que respeitar, mas dá para vencer.

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