Como joga Christian Cueva?

O Santos anunciou na quinta-feira o reforço de Christian Cueva, meia-atacante da seleção peruana, com contrato até 2022. O santista lembra dele especialmente no São Paulo, tanto pela qualidade técnica quanto pelos problemas extra-campo. Ídolo no Peru, “El Aladino”, como é conhecido em sua terra natal, é o armador que Jorge Sampaoli gosta e estava esperando desde quando chegou ao clube.

Apesar da baixa estatura (1,69m), Cueva “compensa” com o raciocínio rápido. O novo camisa 8 do Peixe é muito criativo, sendo um ótimo passador e criador de jogadas ofensivas. O meia peruano possui um controle de bola impressionante e gosta de driblar em progressão, especialmente quando tem liberdade para carregar a bola entre as linhas adversárias.

Levando em consideração a maneira como o Santos vem atuando sob o comando de Jorge Sampaoli, e imaginando Cueva focado em jogar futebol, a contratação do peruano faz sentido. O camisa 8 é um atleta dinâmico, que possibilita ao treinador ampliar a troca de passes/troca de posições, bem ao estilo “toco y me voy”, que foi eternizado pelos argentinos.

Nas últimas partidas, o Peixe mostrou uma paixão pela posse de bola como nunca visto antes. Além disso, a equipe começou a trocar passes com mais eficiência e inteligência, sem medo de rodar o “balão” por todos os lados do gramado, com paciência até chegar em condições de finalização. Cueva se encaixa bem nesse processo, pois Ricardo Gareca, treinador da seleção peruana, gosta de equipes ofensivas e que tratem bem a bola. O treinador argentino, inclusive, tem um apreço muito grande pelo Aladino, tanto que veio ao Brasil tentar colocar tento na cabeça do jogador em meio ao caos que vivia no São Paulo.

Historicamente, Cueva sempre foi um meia-atacante, porém, o peruano também pode ser deslocado para papéis secundários nas pontas (de preferência na direita). No entanto, ao jogar pelas extremidades, não imagine o peruano como um extremo que carrega a bola pelo flanco e cruza. Cueva não é um jogador de profundidade, apesar de verticalizar o jogo quando atua centralizado. Ele é um armador de jogadas, que visa o espaço futuro e abertura de espaço.

Antes de acertar com o Santos, Cueva esteve muito próximo de vestir a camisa do Independiente, cuja filosofia de jogo é semelhante a nossa, apesar de alguns detalhes diferentes. Antes da virada de ano, o nome dele também chegou a ser especulado no Boca por ser um jogador com qualidades similares as de Cardona, que foi para o Monterrey. Independentemente da maneira como o jogador saiu do São Paulo, Cueva sempre foi muito respeitado em outras equipes latinas por conta da “fumaça” que ele causa dentro de campo. Treinadores famosos como Ariel Holan, Ricardo Gareca e Edgardo Bauza são alguns que gostam dele.

Segundo o Footstats, em 87 partidas disputadas com a camisa do São Paulo, tendo entrado como titular em 77 delas, Cueva marcou 20 gols (média de 1,47 por partida), deu 21 assistências diretas para gol e uma impressionante média de 2,05 para finalizações a cada jogo. Ou seja, Cueva participou de um gol a cada dois jogos do São Paulo, além de ter boa eficiência na finalização (1 gol a cada 6,4 chutes).

De acordo com o SofaScore, Cueva fez 55 jogos pelo Brasileirão (2016, 2017 e 2018), onde foi titular em 50 partidas. O meia marcou 10 gols e deu 13 assistências. Além disso, o peruano teve 84% de aproveitamento nos passes, sendo 134 decisivos (chance clara de gol). Cueva chutou 61 bolas, sendo 31 no alvo, e conseguiu 71 desarmes. O meia também chama a atenção na quantidade de dribles certos: 105.

Aos poucos, Sampaoli vai implementando suas ideias no alvinegro. Até conseguir Felipe Aguilar, o Peixe atuava no 4-4-2, mas com a chegada do colombiano, o treinador não titubeou em utilizar a linha de 3 na defesa e aumentar o número de jogadores no meio-campo. Engana-se quem pensa que o Santos atua no 3-5-2 cru, pois não é bem assim. Tal qual fez na seleção chilena, Sampa usa o famoso 3-1-4-1-1, ou seja, uma versão “desconstruída” do primeiro esquema, que procura encurralar o adversário em todos os setores do gramado. Com a posse de bola como objetivo principal, os comandados de Sampaoli mostraram que são capazes de criar espaços na marcação adversária. Sem a bola, o esquema se auto-explica, pois a retaguarda – em tese – estará bem protegida, enquanto o contra-ataque fica engatilhado.

As históricas campanhas do Chile até a conquista da primeira Copa América nesse século tem nesse esquema a chave do sucesso. No entanto, para que ele funcione é necessário um armador que pensa rápido, tal qual era o Valdívia para Sampaoli nos tempos de Roja. Cueva pode e consegue “emular” o chileno, sobretudo por ser um jogador que quebra as linhas adversárias de diversas maneiras. Muita movimentação e profundidade de passe com os alas vindo de trás.

Quando o Santos tem a posse de bola, os defensores criam um suporte muito grande para que os meio-campistas tenham facilidade de movimentação (o que explica o sucesso de Jean Mota, por exemplo), pois a linha estará avançada e raramente o armador precisa voltar para buscar a bola. Revise os jogos do Peixe, mesmo na goleada contra o Ituano, a equipe não deixou um clarão no meio ainda que não possuísse um armador de qualidade técnica maior. Alison, Sánchez e Mota ficam mais a vontade nesse esquema, justamente pelo suporte criado pelos defensores, que participam na construção do jogo.

As melhores atuações de Cueva aconteceram quando o jogador atuava com um meio-campo formado por atletas rápidos, não necessariamente técnicos, mas com jogadores que ocupam o espaço de maneira inteligente. Dito isso, o 3-1-4-1-1 – com as peças que o Sampaoli utiliza – parece ser um esquema pronto para que o peruano seja “orquestrador” das ações ofensivas. O treinador, obviamente, vai exigir muita movimentação do meia, que também terá muita liberdade ofensiva, inclusive, para pisar dentro da área.

No sábado, em sua estreia meteórica, Cueva jogou num Santos armado no 4-2-3-1. Além da novidade no esquema tático, Sampaoli levou a campo uma equipe mista, com jogadores que provavelmente não figurarão em 20% dos jogos na temporada, ao contrário do reforço peruano, que vem para ser titular. Esse é um esquema no qual ele está bastante familiarizado, pois é o mesmo que atua quando serve a seleção peruana, além de ter sido a formação padrão do São Paulo nos quase 3 anos que vestiu a camisa do rival.

Essa é a formação predileta dos treinadores brasileiros, justamente pela necessidade de se utilizar pontas que “abrem” o jogo. Esse foi o esquema que Cueva mais encarou em sua carreira, especialmente em terras brasileiras. No entanto, para que funcione da melhor maneira possível, é necessário ter um centroavante capaz de segurar os zagueiros e fazer o pivô. Cueva é um meia-atacante que, apesar de ser famoso pelas assistências, também gosta de pisar dentro da área e ter um centroavante capaz de segurar a bola ajudaria tanto o camisa 8 quanto aos pontas.

Contra a equipe do interior, Cueva atuou centralizado, porém, sempre trocando de função com Soteldo. Em alguns momentos, o peruano recuava mais para receber a bola do Yuri, que não conseguia furar a primeira marcação adversária. Com a equipe titular e nesse mesmo esquema, Cueva pode se ambientar com mais tranquilidade caso Sampaoli tenha essa preocupação.

Outro esquema utilizado pelo alvinegro nessa temporada, o 4-4-2, também é familiar e propício ao Cueva, que já atuou nesse desenho pela seleção e pelo São Paulo em outrora. Com o losango no meio-campo (ou a famosa “árvore de Natal” que Carlo Ancelotti criou no Milan), a equipe fica mais compacta, porém, ao mesmo tempo permite que haja uma troca de passes com mais eficiência e segurança para um armador móvel como é o peruano.

Apesar de ser um esquema mais tradicional e sem muitos mistérios, o 4-4-2, ou a “Árvore de Natal”, pode ser bem útil ao novo contratado do Peixe. Cueva não é de voltar tanto para ajudar na marcação, enquanto Alison não é um volante que sai para o jogo com muita qualidade (mesmo com o bom início de ano). Tendo um suporte defensivo na base do meio-campo, o peruano pode atuar de maneira mais livre, flutuando atrás dos atacantes e recebendo a ajuda dos meias mais qualificados do elenco (Pituca e Sánchez).

A versatilidade do Aladino permite até que ele atue pelos flancos, como tido antes, num 4-3-3 que o santista está acostumado. Todavia, atuando tanto pela esquerda quanto pela direita faz com que Cueva fique muito limitado no gramado. Obviamente, ele pode se virar numa hipotética necessidade de atuar nesse esquema, sobretudo pela qualidade que ele tem no confronto um contra um.

Não é o esquema ideal, tampouco deve ser utilizado pelo Sampaoli nesse estilo, porém, se for necessário, Cueva pode atuar pela ponta-direita (ou ponta-esquerda dependendo da chegada de um centroavante). No “um contra um”, o peruano é perigoso, apesar de ficar manjado.

Pensando apenas no campo, a contratação de Christian Cueva faz sentido, porque ele possui as qualidades que fizeram o 3-1-4-1-1 tão importante para Sampaoli. Não basta apenas ter técnica, o jogador precisa ser dinâmico, rápido, driblador, que quebre linhas não apenas com os passes. O Cueva reúne essas qualidades, sobretudo quando quer jogar em alto nível. Creio que exista uma relação de dependência mútua, onde o Santos precisa de um meia criativo e o Cueva precisa de um time que case com seu estilo de jogo. Nas mãos de Sampaoli, o peruano pode voar, no entanto, depende exclusivamente da boa vontade do jogador.

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