Como joga Carlos Sánchez?

Carlos Sánchez foi, por um longo período, o jogador mais tático do futebol sul-americano. Muitos se lembram do tempo em que “El Pato” atuou com a camisa do River Plate, porém, antes de chegar aos Millonarios ele já era destaque na Argentina com as cores do Godoy Cruz.

O meio-campista uruguaio de 33 anos viveu seu ápice no River Plate, sob o comando de Matias Almeyda, Ramón Díaz e Marcelo Gallardo. Três treinadores adeptos do 4-4-2. Apesar de ser um esquema pragmático, o 4-4-2 argentino tem um desenho diferente do que foi bastante utilizado no Brasil, especialmente na década de 1990.

Na Argentina, o meio-campo é formado por um “5”, um “8” e um “10”. Calma, eu não errei na conta, eu sei que são quatro e que estaria faltando um número. O quarto elemento não tem um número específico, ao contrário desses três citados. É folclórico, mas ajuda a entender melhor. O “5” é sempre o guardião da equipe, sendo um volante com grandes características defensivas e bons passes. O “8” é o meio-campista frenético, que não para, servindo de guarda-costas do craque da equipe. O “10” é o famigerado “enganche”, que tem liberdade criativa e quase nenhuma obrigação de marcar, às vezes atuando quase como um atacante. O quarto elemento é, geralmente, um meia habilidoso, porém, lento demais para ser enganche, mas que é importante na saída de bola.

No Brasil, o 4-4-2 foi, por muito tempo, formado por dois volantes de marcação e dois meias-ofensivos, sendo um destro e outro canhoto. Muito mais simples, porém, igualmente folclórico. Era a tática do feijão com arroz que deu certo em tempos que exigiam menos.

Por ser mais específico, o 4-4-2 argentino ganhou fama no continente, especialmente quando se tem um “8” diferente. E esse é o caso de Carlos Sánchez. Ele é um meia-direita completamente tático e adorado por vários treinadores da América Latina justamente pelo upgrade que ele proporciona no esquema tático durante as partidas.

Sánchez faz de tudo pelo lado direito. Ele ataca, ele defende, ele cria, ele fecha de volante, ele pisa dentro da área, ele cruza, ele chuta de longe e, se bobear, cobra lateral também. Ele não é um jogador de cadenciar, muito menos de driblar. O meia é um futebolista natural, que está sempre perto da bola.

O “Rei da América” em 2015 foi peça-chave no sucesso do River Plate durante os quatro anos em que vestiu a camisa millonaria.

O uruguaio se sobressai nesse tipo de esquema porque ocupa o lado direito no desenho do 4-4-2, onde fecha os espaços do lateral quando ele avança ou ataca o espaço quando tem a oportunidade (no caso, o ala fica e ele vai). Engana-se quem vê essa função como volante, pois não tem nada a ver. É necessária uma leitura de jogo muito apurada para dar certo.

Sánchez foi campeão da Sul-Americana e da Libertadores com o River, sendo essencial nas duas conquistas. O uruguaio é um exímio cobrador de faltas e escanteios, além de ser versátil e corajoso.

Jogando pelo lado direito, nessa formação do 4-4-2, que Carlos Sánchez foi soberano na equipe de Marcelo Gallardo.

No entanto, a sua grande qualidade é praticamente invisível. El Pato faz o trabalho sujo como poucos. Ele faz com que o jogo do “10” fique mais fácil, consagrando assim a grande estrela da companhia. Pisculichi e Pity Martínez nunca gostaram de marcar, porém, com a presença de Sánchez era praticamente desnecessário que eles voltassem.

A presença do meia entre os titulares é importante, pois trata-se de um jogador equilibrado. Marca e ataca com a mesma eficiência, sendo vital em jogos fora de casa. Nesses casos pode atuar até mais à frente, com dois “volantes” mais marcadores atrás – mesmo o próprio sabendo defender. Numa leitura simplória poderia soar como retranca, mas como chamar um jogador tão imprevisível de retranqueiro? Não faz sentido. Além de ser injusto.

Apesar da experiência, Sánchez ainda possui gasolina no tanque. No entanto, a questão com relação à utilização do jogador no Santos suscita uma dúvida: o próximo treinador está disposto a mudar ou o meia vai ganhar outra função?

Em tese, Sánchez viria para ser titular. Não se gasta dinheiro em um atleta experiente para deixa-lo no banco. Levando em consideração que o 4-1-4-1 de Jair Ventura era falho, muitas vezes virando um 4-2-3-1, questiona-se onde Sánchez iria entrar, já que nenhum desses dois esquemas é parecido com o que ele fez no auge pelo River, pelo Monterrey recentemente e pela seleção uruguaia – ambas as equipes também jogam no 4-4-2. Ele pode até atuar como interior num 4-1-4-1, apesar de não ser sua praia.

A primeira opção é a mais óbvia. Ele seria uma espécie de segundo volante, entrando na vaga do Alison ou do Pituca. É importante lembrar que o uruguaio é destro, local onde Alison ganhou sua sequência. Com Sánchez restringido pelo centro, a equipe perderia o poder ofensivo que ele tem a oferecer, mas ganha em saída de bola e leitura de jogo. Ele salvaria a pele do lateral-direito, por exemplo.

Em tese, para ter uma saída de bola mais qualificada, o parceiro ideal para Sánchez seria Diego Pituca, especialmente porque o uruguaio é destro e precisa atuar pela direita.

Outra opção é – segurem-se – tirar um atacante e migrar para o 4-4-2 “argentino”. Esse é o esquema que consagrou o uruguaio e que pode dar certo justamente pela presença de Bryan Ruiz. Aliás, os dois podem casar muito bem. Ambos se complementam, onde Ruiz tem a técnica e o Sánchez a entrega tática. O time ficaria mais seguro e os atletas estariam em sua funções prediletas, já que Alison poderia ser o “5” e o Pituca o “quarto elemento” explicados acima. Além disso, Gabriel não é centroavante e Ruiz sabe finalizar muito bem quando está de frente para o gol. Uma movimentação constante seria criada com esse esquema.

Para manter Alison sem perder a qualidade no meio-campo, o ideal seria alterar o esquema. O 4-4-2 é uma tática interessante especialmente em jogos como visitante.

Mesmo não sendo um jogador encarregado das articulações do jogo, Sánchez cria muitas oportunidades de gols. Num cenário onde a equipe precisa priorizar a saída de bola mais rápida e explorar os contra-ataques, ele serviria como o “articulador sintético”. A equipe ganharia combatividade no meio-campo e resguardaria Bryan Ruiz para um segundo tempo, por exemplo.

A versatilidade no meio-campo de Sánchez é importante. Numa situação hipotética de que o Clube precise segurar o resultado, ou simplesmente priorizar o contra-ataque, essa vertente do 4-3-3 pode ser muito útil.

Em casos de urgência, Sánchez poderia ser improvisado como um ponta-direita num 4-3-3, função que está vaga no elenco. Todavia, é preciso ter em mente que o uruguaio não é um driblador, que não costuma levar vantagem no um contra um. Força-lo a criar espaços não é uma boa ideia, já que o forte dele é atacar o espaço vazio.

O Santos conseguiu um jogador bastante tático, mas é preciso ter lucidez para aproveita-lo da melhor maneira possível.

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