Análise Tática: o ardiloso Barcelona de Guayaquil

Resumo histórico

Fundado há 92 anos, no dia 1º de maio, o Barcelona Sporting Club é a equipe mais popular do Equador. Entretanto, apesar de parecer óbvio, o BSC não é apenas uma cópia do FC Barcelona, o gigante clube catalão. O clube foi fundado por estudantes da escola Modelo, que ficava no bairro Astillero e que se auto-denominavam La Gallada de la Modelo – Os garotos do Modelo (gallada significa “bando de galos”, que na realidade é gíria para “meninos”). No bairro Astillero habitavam vários catalães que estiveram juntos dos garotos guayaquileños na fundação da equipe. O nome Barcelona foi escolhido devido à cidade dos catalães, além da admiração dos jovens equatorianos pelo goleiro Ricardo Zamora, que porventura era o arqueiro do Barcelona “original”.

Dois apelidos denominam a identidade do Barcelona. Conhecido como “El Ídolo del Ecuador”, essa alcunha vingou devido a uma vitória do Barcelona contra o Millonarios-COL por 3×2. Na época, a equipe colombiana era uma das mais fortes do continente, tendo em seu plantel nomes como Adolfo Pedernera e Alfredo Di Stéfano. Essa façanha aconteceu em um jogo solidário, que tinha o intuito de angariar dinheiro para as vítimas de um terremoto de 6,8 graus na escala Richter, que devastou duas cidades vizinhas a Guayaquil. Já o apelido de “Los Toreros” vem dá relação do clube com as raízes barcelonesas, lar das famosas corridas de touros e touradas.

O Barcelona viveu grandes épocas em sua longa existência, sendo especialmente durante os anos 1970 e 1990. No dia 29 de abril de 1971, Los Toreros sobrepujaram o estupendo time do Estudiantes, que na época era o tricampeão da América (1968,1969 e 1970), na segunda fase da Libertadores por 1×0. O gol foi marcado por Juan Manuel Basurco, que era espanhol, mas que tinha se radicado no bairro Astillero. Na oportunidade, o Barcelona de Guayaquil terminou empatado com o Palmeiras na terceira colocação do hexagonal da segunda fase.

Durante a década de 90, Los Toreros voltaram a aparecer no futebol sul-americano com mais destaque. Em 1990, o Barcelona foi vice-campeão pela primeira vez da Libertadores, quando perdeu a final para o Olímpia. O clube paraguaio venceu o primeiro jogo por 2×0 e empatou o segundo por 1×1.

Em 1998, a equipe equatoriana foi mais uma vez vice-campeã do maior torneio do continente. Desta vez, o Barcelona foi superado pelo Vasco, que venceu as duas partidas: 2×0 no Rio de Janeiro e 2×1 em Guayaquil.

Uma das maiores armas da equipe equatoriana é o seu estádio, chamado de Monumental Isidro Romero Carbo, fundado em 1988. Com capacidade para mais de 57 mil pessoas, o estádio teve seu “naming right” vendido e alterado para Estádio Monumental Banco Pichincha.

Destaques

Máximo Banguera (goleiro), Mario Pineida (lateral-esquerdo), Gabriel Marques (volante), Matíaz Oyola (volante), Damián Diaz (meia), Juan Manuel Ayoví (meia-esquerda), Marcos Caicedo (meia-direita) e Jonatan Álvez (atacante).

Curiosidades

  • O Barcelona nunca foi campeão internacional em sua longa história. Entretanto, El Ídolo del Ecuador é o maior campeão do país com 15 títulos da Liga.
  • Los Toreros gostam muito dos jogadores brasileiros. No geral, 18 brasileiros já vestiram as cores da equipe. Destaques para Adílio (ex-Flamengo), Escurinho (ex-Internacional e Palmeiras), Toninho Vieira (ex-Santos) e Moacir (ex-Flamengo).
  • Em 2013, o FC Barcelona registrou uma solicitação de marca no IEPI (Instituto Equatoriano de Prosperidade Intelectual). Isso pegou tão mal no Barcelona SC, que entrou com uma representação contra o clube catalão. O processo corre até hoje e provavelmente não terá um desfecho. O Barcelona “original” alega que o clube equatoriano está se apropriando de sua marca.
  • José Cevallos, atual presidente do Barcelona SC, foi o goleiro titular da equipe no vice-campeonato de 1998, contra o Vasco. Entretanto, foi campeão da América pela LDU, contra o Fluminense, em 2008.
  • Santos e Barcelona se enfrentaram apenas duas vezes na história. Curiosamente, os dois confrontos foram pela Libertadores, em 2004, quando as equipes caíram no grupo 7. O Peixe venceu os dois jogos, sendo um por 1×0 na Vila Belmiro, com gol de Robinho, e a outra por 3×1 no Monumental, com gols de Renato, Basílio e Robinho. Obviamente, o único remanescente do confronto é o camisa 8 do Peixe.

Caminhada na Libertadores

O Barcelona SC fez oito jogos até o momento pela Libertadores da América, sendo quatro vitórias, um empate e três derrotas. O aproveitamento da equipe jogando no Equador é instável, pois foram duas vitórias, um empate e uma derrota em quatro jogos em casa. Entretanto, Los Toreros marcaram 9 gols na competição tendo Jonatan Álvez como artilheiro (3 gols). O Barcelona SC é proveniente do grupo 1, o “Grupo da Morte”, onde terminou empatado com o Botafogo em pontos, mas atrás dos brasileiros por conta do saldo de gols. O time de Guayaquil começou muito bem a competição, mas perdeu um pouco o gás nas últimas partidas.

Nos últimos cinco jogos foram três derrotas e duas vitórias. O Barcelona vem para o confronto contra o Santos após superar o Palmeiras, nos pênaltis, em pleno Allianz Parque.

Detalhe importante: o Barcelona tomou novd gols na Libertadores e é a terceira equipe mais vazada dentre os classificados para as quartas de final.

Esquema tático

O Santos terá pela frente um confronto perante o espelho. O Barcelona SC é uma equipe muito parecida com o Peixe em sua essência tática. Ambas as equipes jogam no 4-2-3-1, que dependendo da situação vira 4-3-3. Entretanto, existem mínimas diferenças entre o que entregam na competição que as diferem.

Os dois lados são extremamente reativos e verticais, porém, a qualidade técnica dos jogadores do Santos é muito superior a dos equatorianos. Outro detalhe favorável ao Peixe, por incrível que pareça, é a defesa. Apesar de ambos terem goleiros simbólicos, Banguera se destaca mais pelo folclore do que pelo arrojo nas defesas, algo que dificilmente alguém na América do Sul possa se igualar ao Vanderlei.

Entre os zagueiros, o Santos também é muito superior ao Barcelona, especialmente por conta de Lucas Veríssimo, que é o zagueiro mais seguro da competição. Os números jogam a favor do Peixe nesse quesito, já que, dentre os classificados, o Barcelona tem a terceira pior defesa.

Um contraponto que precisa ser ressaltado é a consciência tática do Barcelona, que é superior a do Santos. Isso acontece porque o treinador da equipe equatoriana, o estudioso Guillermo Almada, se preocupa muito mais com os detalhes do jogo do que o professor Levir Culpi.

A dupla de volantes do Barcelona é o termômetro da equipe, pois Matías Oyola, argentino de nascimento, tem muita técnica e visão de jogo. O camisa 18 cadencia o jogo e descola vários lançamentos longos para os jogadores de lado do Barcelona. Os pontas Ayoví e Caicedo sempre buscam abrir o jogo, porém, voltam com muita frequência para ajudar os laterais, que por sua vez são jogadores mais adeptos do jogo defensivo e vigoroso, mas que sabem chegar à linha de fundo. Esse é o grande segredo do time de Guayaquil. É um mecanismo que conseguiu parar o Palmeiras, por exemplo.

Qual a solução? Fazer Oyola se preocupar mais em marcar do que armar o jogo, pois Damián Diaz – que também é argentino – não volta nem com reza braba, enquanto Minda é um jogador limitado tecnicamente. Segurar Marcos Caicedo e Juan Ayoví é questão de sobrevivência, especialmente por se tratar de uma equipe reativa. Ambos são pontas de velocidade e força física, porém também possuem defeitos. Tanto Ayoví quanto Caicedo são limitados tecnicamente, além de serem fracos finalizadores. Ao contrário do Santos, Guillermo Almada faz com que os pontas troquem de lado constantemente para enganar a marcação. Outra jogada clássica do ataque torero é a troca de posição entre Caicedo e Álvez, que abre pela direita para que o equatoriano arranque pelo meio da defesa.

Velocidade, movimentação e marcação-pressão. O Santos vai precisar lidar com essas três características para passar de fase. Guillermo Almada costuma segurar a escalação muitas vezes antes dos jogos, porque gosta de alterar o meio-campo de acordo com o adversário. Nos jogos em casa, o treinador uruguaio geralmente opta pelo Damián Diaz, ídolo da torcida e também um jogador bastante técnico. Nas partidas como visitante, Erick Castillo é o escolhido para dar mais velocidade e maior apoio na marcação.

Entretanto, a principal ameaça é o duelo Victor Ferraz x Marcos Caicedo. O lateral-direito santista, que já é fraco por natureza, vive uma fase pecaminosa. Já o ponta equatoriano é rápido, muito rápido. Irritantemente rápido. Obviamente, Almada já sabe das deficiências do brasileiro na marcação, além de que ele pode dobrar o perigo com Ayoví ou Castillo.

Caicedo saiu do futebol equatoriano há três temporadas prometendo ser uma revelação, mas o que aconteceu no México foi o contrário. Ele costuma ter problemas de disciplina, já que a marcação não é o seu forte. Ter um jogador inteligente como marcador pode ser uma saída menos problemática, basta o Levir Culpi querer.

Por ser uma equipe milimetricamente ajeitada, o Barcelona acaba se tornando uma ameaça nos jogos fora de casa. Dois resultados exemplificam muito bem essa qualidade dos toreros: 2×0 no Botafogo e 2×0 no Estudiantes. O que se viu foi uma equipe fechadinha na defesa, com saídas rápidas pelos volantes e ponteiros velozes se aproveitando da desatenção dos laterais.

Não é uma defesa rápida e forte, porém o esquema faz com que fique firme em situações como essa. É um time montado para contra-atacar e preparado para sofrer, mas que pode esmorecer caso pegue um jogador de habilidade, que saiba explorar as jogadas individuais. Isso quebra a defesa e evidencia a fragilidade individual de cada um de seus componentes.

Como dito antes, o desempenho do Barcelona de Guayaquil quando joga no Monumental é instável. A única partida em que venceram com propriedade foi um longínquo 2×1 contra o Atlético Nacional, em março. Contra o Botafogo, a equipe equatoriana empatou em 1×1, num dia em que os visitantes foram superiores, e contra o Estudiantes foi encaçapada por 3×0. Até contra o Palmeiras, no jogo de ida pelas oitavas-de-final, o Barcelona foi inferior ao adversário.

E isso soa até estranho, pois o Monumental Isidro Romero Carbo além de lindo sempre lota. É um estádio onde a torcida fica muito próxima do gramado, além de ter dimensões largas e propícias para equipes rápidas.

O pragmatismo da equipe ficou mais claro quando Christian Alemán foi vendido ao Estudiantes no meio da competição. Alemán estava presente, de fato, até a bela vitória contra o Botafogo, no Engenhão. Era a alma da equipe, sendo capaz de armar e marcar com facilidade. O ex-meia atuava na armação das jogadas, mas sabia jogar como volante e também como meia-esquerda. Tecnicamente acima da média, despertou o interesse do rival de grupo, que não titubeou em pagar a sua multa.

Com a saída de Alemán, sobrou para Damián Diaz virar titular absoluto da equipe. Por mais que tenha status de ídolo, o argentino não consegue fazer metade do que Alemán fazia. Diaz é menos participativo e está acima do peso. Apesar de ser habilidoso, suas jogadas são previsíveis devido sua limitação física. Além disso, Gabriel Marques, brasileiro revelado pelo extinto Campinas, está voltando agora de uma contusão no adutor da coxa. É um jogador de boa técnica e marcação, que encaixava muito bem com Alemán. Sem ele, o brasileiro fica exposto no mano a mano e geralmente perde para jogadores mais rápidos.

Em tese, o Santos é favorito contra o Barcelona de Guayaquil, porém, pelo o que vem mostrando nos últimos jogos, especialmente pelo Brasileirão, a certeza não é tão grande assim. O adversário, em mais uma coincidência, também atravessa uma fase obscura na temporada. Nos últimos dez jogos, o Barcelona venceu duas partidas, perdeu quatro e empatou três, que foram os últimos três resultados da equipe antes de pegar o Santos, na quarta-feira, dia 13.

O Santos vai precisar se encontrar taticamente para esse jogo. Depender do Vanderlei, Lucas Veríssimo e de alguma assistência do Lucas Lima para o Bruno Henrique não será suficiente para passar por esse adversário chatíssimo.

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