Pelé marca: cena se repetiu por incríveis oito vezes. (Foto: Folha de S. Paulo)

Há 54 anos, Pelé marcou oito e Santos aplicou a segunda maior goleada de sua história

“As pessoas que compareceram ao estádio de Vila Belmiro, na tarde de ontem, assistiram a uma partida histórica, que poderão contar com orgulho, mais tarde, para seus netinhos” , trazia o texto do jornal Folha de São Paulo em sua edição de 22 de novembro de 1964.

Quem esteve na Vila Belmiro, viu o Santos aplicar a segunda maior goleada de sua história: 11×0 sobre o Botafogo de Ribeirão Preto. De quebra, ainda assistiu Pelé estabelecer o recorde de gols marcados em uma só partida: oito tentos.

A marca anterior pertencia a Araken Patusca, também santista, com sete gols marcados diante do Ypiranga, em 1927. Doze anos depois, Darío, o Dadá, superou o Rei Pelé e marcou dez gols em partida disputada pelo Campeonato Pernambucano.

“Foi uma partida magnífica, em que o atleta Pelé mais parecia uma “fera solta dentro do “coliseu”, a devorar pobres e indefesas vítimas, sob o delírio de um público que chegou a ficar de pé, sob uma chuvinha fria, para aplaudir o maior jogador do mundo”, descreveu a Folha.

O time de Ribeirão Preto foi massacrado na tarde daquele sábado. O intervalo apontava 7×0 para o Alvinegro. Além dos onze gols sofridos, o goleiro Machado foi a melhor figura dos adversários em campo – evitando, assim, um placar mais elástico.

O tradicional placar de madeira aponta: 11×0 (Foto: Acervo Santista)

A enxurrada de gols causou problemas não só para a equipe do interior. Em tempos onde o placar nos estádios era de madeira e atualizado manualmente, o responsável por alterar o número a cada gol viu-se em apuros. “Quando Pelé marcou o décimo gol para o Santos, não havia mais número suficiente, e um torcedor logo gritou: tira a camisa do Pelé e coloca lá”, relatou o jornalista da Folha presente na peleja.

Histórias

Lima, o Curinga da Vila, conta uma engraçada passagem que antecedeu esta memorável partida. Companheiro de quarto de Pelé, percebeu que o parceiro estava irrequieto. Para espantar o marasmo, resolveram pegar o carro de um amigo emprestado para passear. O veículo, de última geração, tinha o câmbio automático.

Com Pelé ao volante, seguiram o trajeto pela orla da praia. Ao chegar ao Itararé, uma das praias de São Vicente, o Rei resolveu acelerar e apertou um dos botões existentes no belo painel – talvez imaginara que acionaria algum turbo. Imediatamente ouviu-se um forte barulho e o carro perdeu velocidade até parar. No chão, óleo derramado. Já não era mais possível dar novamente a partida.

Impossibilitados de continuar o passeio, rapidamente foram salvos por uma boa alma, que lhes ofereceu carona antes que a multidão os reconhecesse. No trajeto de volta, tempo para discussão sobre o ocorrido. Lima alertava que havia acionado a marcha ré, fato este refugado por Pelé. “Eu sabia o que estava fazendo, sei dirigir carros assim, jamais acionaria a ré”, bradava o Rei, indignado com a desconfiança do colega em seu potencial como piloto. Lima ria e dizia que a confusão fora causada pela ré acionada, quando o carro estava em movimento.

Vingança?

Na partida entre as equipes pelo primeiro turno, vitória do Botafogo por 2×0. O time do interior abusou da provocação, inclusive Zito fora expulso por dar um pontapé em Zuíno, que fizera menção de sentar na bola. Nas arquibancadas, a torcida gritava “olé” e caçoavam dos jogadores santistas.

A vontade dos jogadores do Santos era diferente dos dias habituais, em especial Pelé. “A cada gol que ele fazia, pegava a bola no fundo da rede e voltava para o meio-campo correndo, porque queria bater o recorde de gols”, cita o meia Antoninho, do Botafogo. O desejo de vingança do Rei ficou evidente a cada gol que marcava. “Conforme ele ia correndo até o meio-campo, apontava o dedo pra gente e gritava: vocês vão se foder aqui hoje”, completa o botafoguense.

Patrimônio nacional

Dois dias depois da exibição de gala, o jornal Estado de S. Paulo noticiou que o Banco Nacional de Minas Gerais colocou recursos financeiros à disposição do Santos para evitar a saída de Pelé para o exterior. O objetivo era financiar a renovação de contrato do jogador e assim mantê-lo atuando em território nacional.

Em época de nacionalismo exacerbado, perder o maior jogador do futebol brasileiro era motivo de preocupação nas lideranças políticas do país. O presidente do banco mineiro era Magalhães Pinto, que hoje empresta o nome ao estádio do Mineirão. A tratativa acabou por não se concretizar, mesmo assim Pelé permaneceu no Santos até o fim de sua carreira, em 1974.

O jogo

O Santos começou a partida de maneira alucinante e nos primeiros minutos já tinha criado três chances de gol. Na quarta oportunidade, aos 3 minutos, Pelé abriu o marcador. O Rei recebeu passe de Mengálvio e tocou na saída do goleiro botafoguense.

Cinco minutos depois, Pelé novamente estufou a rede. Recebeu lançamento de Lima e, ao finalizar de pé esquerdo, a bola bateu em seu pé direito e encobriu o goleiro. Aos 16, mais um gol dele: desta vez de cabeça, após cruzamento de Toninho Guerreiro.

O Rei do Futebol estabeleceu recorde sul-americano de gols em um só jogo. (Foto: Folha de S. Paulo)

Pepe marcou o quarto, em cobrança direta de escanteio – o goleiro tentou espalmar a bola, mas jogou-a para dentro do gol. Coutinho assinalou o quinto, após mais uma de suas maravilhosas tabelas com Pelé. Aos 38 e aos 40 minutos, Pelé marcou mais duas vezes antes do intervalo. Aos 38, recebeu de Pepe e arrematou com o pé esquerdo. A bola bateu no zagueiro Hélio Vieira e voltou para o Rei, que com o pé direito tocou no canto oposto ao que estava, já caído, o goleiro Machado.

Faltando cinco minutos para o fim, Mengálvio fez o desarme, lançou Pepe, que arriscou um de seus violentos chutes ao gol, mas não acertou o alvo. A bola passou pela defesa inteira, mas não por um atento Pelé, que se atirou à bola, colocando-a para dentro. Com o gramado molhado, até o Rei foi parar nas redes.

No segundo tempo, o ritmo alucinante diminuiu, com certo equilíbrio nos 20 primeiros minutos. Aos 25, Pelé marcou o oitavo gol do Santos, seu sexto na partida. Em posição irregular, recebeu de Coutinho, errou a primeira tentativa de finalização, mas antes que a bola saísse em linha de fundo, arrematou forte, quase sem ângulo.

Dois minutos depois, Pepe foi derrubado por Ditinho e o juiz apontou penal. Pelé cobrou no canto direito do goleiro Machado. No minuto seguinte, o Rei marcou seu oitavo gol, ao escorar de cabeça um cruzamento de Pepe. Em quatro minutos, Pelé marcara três gols.

Os jogadores santistas passaram a procurar Pelé para ampliar o recorde, com isso algumas jogadas que poderiam resultar em gols foram desperdiçadas. No último minuto de jogo, ainda houve tempo para Toninho Guerreiro fechar o placar em 11×0. O atacante recebeu belo passe de Coutinho, matou no peito, esperou a pelota quicar no chão e fuzilou o goleiro Machado.

Sábado, 21 de novembro de 1964
Vila Belmiro, em Santos
Rodada 16, returno

Santos FC v Botafogo 11-0
Gols: Pelé 3, 8, 16, 38, 40, 70, 72 pen, 73, Pepe 19, Coutinho 23 e Toninho 90.
Santos FC: Gilmar; Ismael, Modesto, Haroldo e Geraldino; Lima e Mengálvio; Toninho, Coutinho, Pelé e Pepe. Técnico: Lula.
Botafogo: Machado; Ditinho, Carlucci, Tiri e Maciel; Hélio Vieira e Adalberto; Zuino, Alex, Antoninho e Gaze. Técnico: Osvaldo Brandão.
Juiz: Carlos Drumond da Costa.
Público: 9.437. Renda: Cr$ 4.210.800,00.

Comentários

comentário