Revista do Esporte (RJ), em 1965

Gonçalo: o renegado

Dispensado pelo Santos em 1965, o meia-atacante Gonçalo justificou o motivo de seu insucesso em Vila Belmiro: sua pele branca.

Que o Santos é um clube especial, todos sabem. Em Vila Belmiro, até as polêmicas são diferenciadas. Em 1965, um jogador saía do clube denunciando ter sido vítima de racismo, o que, segundo alegava, minaram suas chances em conseguir se destacar e assumir a condição de titular da equipe.

Gonçalo justificava sua falta de sucesso no Santos pelo fato de sua pele ser branca. Sim, isso mesmo, você não leu errado. “Eu dava um duro danado nos treinamentos, procurava manter a minha melhor forma física e técnica, mas, no final, ficava de fora. Se eu fosse escuro, seria o titular, não tenho dúvida”, disse o jogador.

As declarações do jogador foram publicadas na extinta Revista do Esporte (edição 337), do Rio de Janeiro, com a manchete: “Técnico do Santos só gosta de escalar escurinhos”. Além da acusação ao técnico Lula, Gonçalo também dirigiu sua indignação a Pelé, que seria o causador de tal ambiente. “Creio que Pelé é, embora indiretamente, o causador dessa preferência. Acho que pelo fato de Pelé ser escurinho, o treinador procura usar jogadores de cor, para não contrariar o Rei”.

Ao ser questionado pelo jornalista de maneira direta se Pelé era racista, o jogador foi bastante contraditório em sua resposta. “Nunca senti isso nele. O Pelé tem suas preferências, como por Coutinho, por exemplo, com quem ele se entende melhor”.

A reportagem foi publicadas pouco tempo depois de Gonçalo apresentar-se ao Fluminense, onde também teve pouco sucesso. As reclamações tiveram pouca repercussão à época, talvez pelo fato de que Toninho Guerreiro, também atacante e branco, ter se firmado na equipe titular sem qualquer problema. Isso sem contar Pepe, Gylmar, Mauro, Calvet, Olavo, Dalmo, Orlando, Peixinho, Douglas, Cláudio e tantos outros que passaram com sucesso pelo clube na Era Pelé.

Em contrapartida às polêmicas declarações de 1965, Gonçalo fez parte de umas das mais belas histórias de luta contra o racismo do futebol brasileiro. Quando atuava pela Portuguesa Santista, em 1959, sua equipe recusou-se a entrar em campo na Cidade do Cabo (África do Sul) pois os dirigentes locais exigiam que apenas jogadores brancos participassem da partida – lá, viviam no regime de divisão racial.

Carreira
Nascido em São Vicente, na Baixada Santista, Gonçalo tornou-se profissional atuando pela Portuguesa Santista. Integrou o grupo da Briosa que conquistou a Fita Azul, título dado a equipes que voltavam sem derrotas de excursões internacionais. Em 1959, a Portuguesa venceu todos os seus 15 jogos em excursão ao continente africano. Atuou também no São Paulo, inclusive participando da partida inaugural do estádio do Morumbi.

Gonçalito, como era chamado pelos amigos, atuou pelo Santos 11 vezes. Participou das campanhas vitoriosas no Campeonato Paulista e Torneio Rio-São Paulo de 1964.

Dono de temperamento explosivo, colecionou diversas polêmicas ao longo de sua carreira, com discussões com dirigentes, jogadores e torcedores. Faleceu em 2016, aos 81 anos, em Santos.

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